Governo do Distrito Federal
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13/05/21 às 22h21 - Atualizado em 13/05/21 às 22h36

Capivaras e a febre maculosa brasileira

Febre Maculosa Brasileira

A capivara é um dos hospedeiros do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense), o qual transmite a doença Febre Maculosa Brasileira (FMB). A doença é transmitida por esses carrapatos, que funcionam como reservatórios da bactéria Rickettsia rickettsii, que são microrganismos que causam a FMB. O carrapato pode ser encontrado em cavalos e outros animais de grande porte, cães, aves domésticas, roedores e na capivara.

Carrapato estrela. Fonte: http://g1.globo.com/bemestar/blog/doutora-ana-responde/post/carrapato-e-febre-maculosa-sinais-de-alerta.html

 

Ciclo de transmissão da febre maculas e seus sintomas

Para transmitir a doença, o carrapato-estrela precisa ficar ao menos quatro horas fixado na pessoa. Os carrapatos mais jovens (micuins) e de menor tamanho são vetores mais perigosos, porque são mais difíceis de serem vistos. A doença inicia-se com sintomas semelhantes aos de outras infecções, como febre, dor no corpo, dor de cabeça e desânimo. A doença apresenta alta letalidade se não tratada precocemente.

Ciclo de transmissão e sintomas da Febre Maculosa Brasileira (FMB). Fonte: G1 e Ministério de Saúde. (2019)

 

Quando são infectadas por carrapatos vetores, as capivaras hospedeiras podem apresentar bactérias na corrente sanguínea (bacteremia) por até três semanas, podendo levar à morte ou à cura. Durante a bacteremia, as capivaras podem disseminar o agente para outros carrapatos que as estiverem parasitando, causando transmissão da bactéria para outros animais no ambiente. No entanto, quando curadas, se tornam resistentes a doença contribuindo para manter mais baixos os níveis de disseminação da bactéria na população de carrapatos. Os carrapatos podem se alimentar de qualquer hospedeiro acidental, inclusive o ser humano, transmitindo assim o agente infeccioso e causando a doença.

A FBM é uma doença de notificação obrigatória e todo caso suspeito deve ser notificado às autoridades locais de saúde, que irá realizar a investigação epidemiológica e avaliar a necessidade de adoção de medidas de controle.

 

Febre maculosa no Brasil e no Distrito Federal

De acordo com os dados públicos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN, o Brasil teve 2090 casos de FMB registrados de 2000 a 2018. A distribuição dos casos por região geográfica mostra uma concentração na Região Sudeste (73,73%) e na região Sul (23,92%). O Centro-oeste registrou 22 casos (1,05%)  ao longo desses anos. O mesmo sistema registra 681 óbitos no Brasil por FMB entre 2000 e 2018, com concentração na Região Sudeste (98,8%). O Centro-Oeste só registrou 1 óbito no estado do Mato Grosso.

Dados de casos registrados no SISNAN
Dados de óbitos registrados no SISNAN

Para o Distrito Federal, o SINAN registrou apenas três casos de FMB, sendo um em 2005, outro em 2006 e o último em 2016, sendo que desses registros, não houve nenhum óbito. Além disso, um estudo da UnB intitulado de “Pesquisa de riquetsias em capivaras (hydrochoerus hydrochaeris) de vida livre do distrito federal”, embora tenha achado uma infecção mínima (0,86%) nos carrapatos  pela bacteria Rickettsia parkeri, não encontrou nenhum sinal de endemia de FMB no DF já que não verificou a presença da bactéria Rickettsia rickettsii nas capivaras ou carrapatos do estudo.

 

Febre maculosa em capivaras do Distrito Federal

A febre maculosa pode acometer não somente os seres humanos, como também as capivaras. Além da febre maculosa, as capivaras também podem ser acometidas por outras patologias com potencial zoonótico (transmissível de um animal ao homem), a exemplo da raiva, leptospirose, leishmaniose e tripanossomíase, assim como enterobacterioses e doenças fúngicas. As evidências dessas infecções nesses animais e o aumento das populações da espécie em áreas antropizadas são consideradas uma questão de saúde pública. De acordo com o estudo intitulado de “Pesquisa de riquetsias em capivaras (hydrochoerus hydrochaeris) de vida livre do distrito federal” as capivaras no DF não apresentaram riquetsemia (níveis circulantes da bactéria na corrente sanguínea), mas 96,3% das amostras apresentaram titulações de anticorpos para o gênero Rickettsia, sem alterações laboratoriais, indicando que já tiveram contato com bactérias do gênero, sendo constatado que em sua maioria o contato foi com a bactéria Rickettsia bellii, que não causa doença em humanos.

 

Febre maculosa em cães do Distrito Federal

No trabalho intitulado “Pesquisa De Riquétsia do Grupo da Febre Maculosa em Cães no Distrito Federal, Brasil”, foi possível observar a ocorrência da bactéria do gênero Rickettsia em cães recebidos na Gerência em Vigilância Ambiental de Zoonoses do Distrito Federal. Foram analisadas 197 amostras de coágulo de sangue de cães no ano de 2015. Os resultados encontrados foram negativos.

Os cães podem participar do ciclo de transmissão da FMB por viverem em domicílio humano e por serem suscetíveis à doença, considerados animais sentinelas para FMB. A doença tem sido descrita em seres humanos em vários estados brasileiros, no entanto, esse fenômeno não ocorre normalmente em populações de cães, mesmo sendo expostos aos vetores potenciais de Rickettsia rickttsii e outras rickettsias. Os primeiros registros positivos para riquétsias pertencente ao grupo da febre maculosa em cães no Distrito Federal – DF – foram realizados em 2013, em pesquisa conjunta com a Universidade de Brasília, Fundação Oswaldo Cruz e a Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal.

 

Controle de carrapatos de vida livre e medidas de prevenção

Medidas de controle da população de carrapatos de vida livre também podem ser adotadas na prevenção da febre maculosa. Considerando que a exposição direta a raios solares normalmente é fatal para os micuins (fase larval do carrapato-estrela), pode ser adotada a capina mecânica constante de áreas verdes com utilização humana, respeitadas as restrições ambientais de cada local, podendo-se usar a retirada manual ou aspiração dos restos da capina para aumentar a sua eficiência em reduzir os carrapatos presentes no ambiente.

É importante observar que o uso de carrapaticidas não é apropriado para o controle dos carrapatos, pois esses, além de apresentar baixa eficiência no controle do carrapato-estrela no ambiente, é nocivo a outros animais invertebrados e pode ser um contaminante da água e solo, podendo causar prejuízos ao meio ambiente. Os carrapaticidas podem ser aplicados em hospedeiros domésticos como os cães, equinos e bovinos, com a supervisão de um médico veterinário, como medida adicional de prevenção.

Da mesma forma, o uso de queimadas da vegetação no combate aos carrapatos, além de proibido (Lei nº 4.329/2009 e Instrução IBRAM nº 208/2013), traz mais prejuízos ao ambiente que os possíveis benefícios. Ademais, em se tratando do Lago Paranoá, o Decreto nº 33.537/2012, que trata do zoneamento da APA do Lago Paranoá, proíbe os dois tipos de prática:

“Art. 4º Na APA do Lago Paranoá ficam proibidos:

(…)

IV. a prática de queimada, exceto para proteção da biota e mediante autorização do órgão ambiental competente;

(…)

VII. a utilização de agrotóxicos e outros biocidas;”

Além do controle da infestação de carrapatos, outras ações de prevenção e controle da FMB podem ser tomadas como evitar contato com as áreas de risco (que são aquelas com presença de carrapatos, capivaras), realização de orientações sobre a busca pelos serviços de saúde na presença de sintomas, diagnóstico precoce e busca pela importância de antecedentes epidemiológicos. Dentre as recomendações constatadas sobre a prevenção, é importante destacar:

– Usar roupas claras porque facilitam enxergar melhor os carrapatos;

– Examinar o corpo cuidadosamente a cada três horas porque o carrapato transmite a bactéria responsável pela doença só depois de pelo menos quatro horas grudado na pele;

– Colocar a barra das calças dentro das meias e calçar botas de cano mais alto nas áreas que possam estar infestadas por carrapatos;

– Ter em consideração que os sintomas iniciais da febre maculosa são semelhantes aos de outras infecções e requerem assistência médica imediata.

 

Referências bibliográficas

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CRUZ, L.M. 2016. Pesquisa De Riquétsia do Grupo da Febre Maculosa em Cães no Distrito Federal, Brasil. Dissertação de mestrado. Universidade de Brasília. 67p

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PREFEITURA DE CAMPINAS. Começa I Semana de Prevenção e Controle da Febre Maculosa, 2019. Disponível em: http://www.campinas.sp.gov.br/noticias-integra.php?id=36598 SECRETARIA da Saúde do Estado de São Paulo. Divisão de Zoonoses. Febre Maculosa. In:

QUADROS, A. P. N. 2020. Pesquisa de riquetsias em capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris) de vida livre do Distrito Federal. Dissertação de mestrado. Universidade de Brasília. 49p

Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, Coordenadoria de Controle de Doenças, Centro de Vigilância Epidemiológica. Guia de vigilância epidemiológica. São Paulo; 2012. p. 63-70.

SOUZA CE, Calic SB, Camargo MCGO. O papel das capivaras Hydrochaeris hydrochaeris na cadeia epidemiológica da febre maculosa brasileira. Rev Bras Parasitol Vet. 2004; 13 Supl 1:203-5

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